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Formação do arquiteto segundo UNESCO/UIA

 CARTA DA UNESCO / UIA SOBRE A FORMAÇÃO DO ARQUITETO

13/06/2008

Nós, arquitetos, preocupados com o desenvolvimento futuro da Arquitetura, num mundo em rápida transformação, acreditamos que tudo aquilo que influencia o modo como o ambiente construído é produzido, utilizado, equipado, tratado paisagisticamente e mantido, pertence ao campo disciplinar dos arquitetos. Nós, enquanto responsáveis pela melhoria da formação dos futuros arquitetos, que os permita trabalhar em prol de um desenvolvimento sustentável, no âmbito de qualquer tradição cultural, declaramos:

 

I. CONSIDERAÇÕES GERAIS

 

Que os novos tempos virão acompanhados de graves e complexos desafios relacionados à degradação social e funcional de muitos assentamentos humanos, caracterizados pelo déficit habitacional e de serviços urbanos para milhões de habitantes, e pela crescente exclusão, do projetista, daquelas obras de interesse social. Isto torna essencial que os projetos e as pesquisas desenvolvidos em instituições acadêmicas formulem novas soluções para o presente e o futuro.

 

1. Que a Arquitetura, a qualidade dos edifícios, a maneira como eles se relacionam com o entorno, o respeito ao ambiente natural e construído, assim como ao patrimônio cultural, coletivo e individual, são todas matérias do interesse público.

 

2. Que, conseqüentemente, há interesse público em assegurar que os arquitetos estejam habilitados a compreender e expressar praticamente as necessidades dos indivíduos, grupos sociais e comunidades, envolvidos no planejamento espacial, nas práticas projetuais, na construção de edifícios, assim como na conservação e reabilitação do patrimônio construído, na manutenção do equilíbrio ambiental e no uso racional dos recursos disponíveis.

 

3. Que os métodos de formação e treinamento de arquitetos são muito variáveis; e que isto constitui um patrimônio cultural que deve ser preservado.

 

4. Que, não obstante, é prudente estabelecer uma base comum para a ação futura, não apenas quanto aos métodos pedagógicos adotados, mas também objetivando-se alcançar padrões apropriadamente elevados, estabelecendo-se critérios que permitam, às nações, escolas e entidades profissionais, avaliar e aperfeiçoar a educação proporcionada aos futuros arquitetos.

 

5. Que a crescente mobilidade dos arquitetos, entre diferentes países, exige o mútuo reconhecimento ou validação de diplomas e títulos individuais, assim como de outras comprovações de qualificação formal.

 

6. Que o reconhecimento mútuo de diplomas, títulos ou outros atestados de qualificação formal para a prática profissional no campo da Arquitetura, deve se basear em critérios objetivos, que assegurem que os portadores de tais titulações efetivamente receberam e mantêm o tipo de treinamento exigido nesta Carta.

 

7. Que a antevisão do mundo de amanhã, cultivada nas escolas de Arquitetura, deve incluir os seguintes objetivos:

 

·         Qualidade de vida decente para todos os habitantes dos assentamentos humanos;

·         Aplicações tecnológicas que respeitem as necessidades sociais, culturais e estéticas das pessoas;

·         Equilíbrio ecológico e desenvolvimento sustentável do ambiente construído;

·         Uma arquitetura que seja considerada patrimônio e responsabilidade de todos.

II. FORMAÇÃO E OBJETIVOS

 

Uma vez que a criação arquitetônica acontece no interior de um campo de tensão, onde atuam a razão, a emoção e a intuição, a formação do arquiteto deve ser considerada como a manifestação da habilidade de conceber, coordenar e executar a idéia de edifício enraizada na tradição humana.

 

1. A Arquitetura é um campo interdisciplinar que abarca, inclusivamente, diversas áreas de conhecimento, em especial: Humanidades, Ciências Naturais e Sociais, Tecnologia e Artes. A formação em Arquitetura é oferecida em Universidades, Escolas Politécnicas e Academias de Belas Artes. A formação que conduz à qualificação formal, e que permite a prática profissional no campo da Arquitetura, deve ser garantida em nível universitário, sendo a Arquitetura a matéria principal do curso.

 

2. O objetivo básico deve ser a capacitação do arquiteto como um generalista capaz de resolver potenciais contradições entre diferentes exigências, dando forma às necessidades espaciais e ambientais da sociedade e dos indivíduos.

 

3. A formação do arquiteto pressupõe o seguinte:

 

·         Habilidade para criar projetos arquitetônicos que satisfaçam, tanto às exigências estéticas, quanto às exigências técnicas;

·         Conhecimento adequado da história e das teorias da Arquitetura assim como das artes, tecnologias e ciências humanas relacionadas;

·         Conhecimento das artes plásticas na medida que isto influencia a qualidade do projeto arquitetônico;

·         Conhecimento adequado de projeto e planejamento urbano, e das ferramentas necessárias ao processo de planejamento;

·         Entendimento das relações entre pessoas e edifícios, entre edifícios e seu contexto (entorno), e da necessidade de se relacionar edifícios e espaços vazios às necessidades e à escala humana;

·         Compreensão do que seja a profissão e o papel do arquiteto na sociedade, em especial na condução de análises que lidem com aspectos sociais;

·         Conhecimento dos métodos de pesquisa e preparação de programas para obras a serem projetadas;

·         Compreensão dos problemas relacionados à engenharia, construção e projeto de estruturas, associados com o projeto de edifícios;

·         Conhecimento adequado dos problemas físicos, das tecnologias e do funcionamento dos edifícios, de modo a prove-los com condições internas de conforto ambiental e proteção contra as intempéries climáticas;

·         Habilidade projetual necessária para atender às necessidades dos usuários dos edifícios, respeitadas as restrições impostas por fatores econômicos (custo) e legais (legislação urbanística-edilícia);

·         Conhecimento adequado dos processos, organizações, regulamentos e procedimentos envolvidos na tradução de conceitos projetuais em edifícios, e na integração de planos específicos no planejamento global.

 

4. Os estudantes de Arquitetura devem ser criticamente esclarecidos sobre as motivações políticas e econômicas, subjacentes aos programas elaborados pelos clientes, e subjacentes à legislação urbanística-edilícia vigente, de tal forma que possam forjar uma estrutura ética que sustente a tomada de decisões no contexto do ambiente construído. Os novos arquitetos devem ser incentivados a assumir responsabilidades, enquanto profissionais no seio da sociedade.

 

5. Os programas educacionais devem promover os projetos arquitetônicos que considerem os custos de manutenção futura, levando em conta, inclusive, que, ao contrário dos métodos construtivos tradicionais, que utilizam materiais de fácil manutenção, alguns materiais e sistemas industriais contemporâneos, experimentais e ainda não testados, exigem manutenção sistemática e cara.

 

6. A aquisição equilibrada do conhecimento e das habilidades mencionadas no item 3, acima, requer um longo período de maturação; os cursos de formação de arquitetos nunca devem ter menos que cinco anos de estudos, em tempo integral, numa universidade ou instituição equivalente, acrescidos de dois anos de experiência prática (estágio ou programa de treinamento) em escritório de Arquitetura, dos quais, pelo menos um ano dedicado à prática 'profissional', após a conclusão dos estudos acadêmicos.

 

A formação deve ser formalizada por um exame, ao final do programa de estudos, cuja principal parte seja a apresentação e defesa individual de um projeto de arquitetura que demonstre o conhecimento adquirido e as habilidades correlatas. Para este fim, os júris devem incluir arquitetos praticantes e professores externos à escola, se possível, até de outros países.

 

7. Objetivando-se aproveitar os benefícios decorrentes da enorme variedade de métodos de ensino, programas de intercâmbio para professores e estudantes de nível avançado, são desejáveis. Idealmente, os projetos finais de curso devem ser compartilhados entre as escolas, visando facilitar a comparação entre resultados e a auto-avaliação dos estabelecimentos de ensino, através de um sistema de prêmios internacionais e exposições.

 

8. Informações relacionadas à Arquitetura e ao ambiente natural-cultural devem ser introduzidas no ensino fundamental e médio, como parte da formação educacional geral, uma vez que algum conhecimento arquitetônico básico é importante, tanto para os futuros arquitetos quanto para os usuários de edifícios.

 

9. Programas de educação continuada devem ser oferecidos aos arquitetos; sua formação nunca deve ser considerada como um processo concluído.

III. CRITÉRIOS PARA A FORMAÇÃO DO ARQUITETO

 

A fim de atingir os objetivos acima mencionados, os seguintes aspectos devem ser levados em consideração:

 

1. Recomenda-se aos estabelecimentos educacionais a criação de sistemas de avaliação interna e externa, conduzidas a intervalos regulares, incluindo-se nos seminários críticos, professores de outras escolas e arquitetos praticantes.

 

2. Cada instituição de ensino deve ajustar o número de estudantes à sua capacidade docente. Os critérios para a seleção de candidatos devem estar relacionados com as aptidões necessárias a uma formação bem sucedida em Arquitetura, e serão aplicados por meio de processos de seleção apropriados, conduzidos pelas escolas, por ocasião do acesso ao curso.

 

3. A moderna tecnologia computacional de uso pessoal (PCs), e o desenvolvimento de programas (softwares) especializados, tornam imperativo o ensino do uso de computadores em todos as vertentes da formação do arquiteto. Laboratórios adequados, instalações para pesquisa e estudos avançados, intercâmbio de informações e dados relacionados a novas tecnologias devem ser disponibilizados nas escolas da Arquitetura.

 

4. A criação de uma rede mundial para troca de informações, e intercâmbio de professores e estudantes avançados, é necessária para a promoção do mútuo entendimento e para a melhoria da qualidade da educação arquitetônica.

 

5. A interação contínua, entre prática e ensino da Arquitetura, deve ser incentivada e protegida.

 

6. A pesquisa arquitetônica deve ser considerada uma atividade inerente dos professores de Arquitetura, e se fundar no trabalho projetual, nos métodos construtivos e, ainda, nas disciplinas acadêmicas. Seminários críticos específicos devem ser organizados para sua avaliação, e arquitetos praticantes incluídos nas comissões de avaliação geral.

 

7. O trabalho projetual deve ser uma síntese do conhecimento adquirido e das habilidades relacionadas.

 

O currículo dos cursos de Arquitetura deve incluir as matérias mencionadas nos objetivos educacionais (item II.3) desta Carta.

 

O exercício projetual individual, com professor e estudante dialogando diretamente, deve ocupar uma parte substancial do tempo de estudo e constituir metade do currículo.

CONCLUSÃO

 

Esta Carta nasceu de uma iniciativa da UIA e da UNESCO, de tal forma que possa ser aplicada por qualquer escola de Arquitetura, internacional ou nacionalmente.

 

Espera-se que esta Carta possa ser utilizada para a criação de, uma rede global de educação arquitetônica, no interior da qual as contribuições individuais possam ser compartilhadas por todos.

 

Esperamos que esta Carta, dirigida a todas as nações, possa contribuir para o entendimento da educação arquitetônica como um desafio sócio-cultural e profissional do mundo contemporâneo, que como tal precisa de garantias de proteção, desenvolvimento e ação urgente.

www.vivercidades.org.br

www.unesco.org

www.uia-architectes.org


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